Agro Internacional — Edição 17
No Brasil, a Noruega abriu no domingo uma cota de carne com tarifa zero, mas a carne brasileira segue barrada por falta de uma prova que a Europa aceite. Na Ucrânia, o grão está nos silos, mas nenhum navio tem garantia de voltar. Na China, a soja americana entra por uma promessa que só as estatais cumprem.
Português Gabriel Rondon
🌐 In English: International Agro — Issue 17
O Brasil ganhou uma porta tarifária que a regra sanitária mantém fechada, a Ucrânia tem o grão mas não a garantia do navio, e a China compra soja americana por uma promessa que só o Estado executa. Toda semana eu leio o agro do mundo procurando não a notícia, mas a camada que ela esconde.
No Brasil, no domingo, 1º de novembro de 2026, o acordo Mercosul-EFTA passou a valer com a Noruega, com cotas de carne bovina a tarifa zero.
Na Ucrânia, em 1º de novembro, o Christian Science Monitor descreveu agricultores com os silos cheios e sem rota segura para o mar.
Na China, em 23 de outubro, a DatamarNews mostrou que Pequim ainda não anunciou novas compras de soja americana depois do encontro entre Donald Trump e Xi Jinping.
Parece três histórias. É uma só.
Brasil: a carne existe, a tarifa caiu, falta a prova que a Europa aceite
Na edição anterior, a carne argentina vendida à Europa valia US$ 14.615 por tonelada, quase o dobro de outros destinos, segundo o consultor Víctor Tonelli no La Nación. A carne brasileira não disputa esse preço. Ela está fora da lista.
Em 12 de maio de 2026, a União Europeia anunciou a retirada do Brasil da lista de países autorizados a exportar produtos de origem animal, com efeito a partir de 3 de setembro, segundo a Agência Brasil. A lista inclui carne bovina, aves, ovos, mel e pescado.
O motivo não é sanitário no sentido clássico. É de prova. Segundo a Agência Brasil, o Brasil “não apresentou garantias suficientes sobre o controle do uso de antimicrobianos na pecuária”. Argentina, Paraguai e Uruguai seguem habilitados.
Em abril, o Ministério da Agricultura proibiu certos promotores de crescimento. Não bastou. Segundo a Folha Agrícola, republicada pela Fundesa em 11 de agosto de 2026, a avaliação europeia foi que os controles dependiam muito de registros e declarações da própria cadeia produtiva.
Agora entra a porta nova. A Portaria Secex nº 548, publicada em 19 de outubro de 2026, disciplina as cotas do acordo Mercosul-EFTA para a Noruega, segundo o BeefPoint, com informações da Feed&Food, em 22 de outubro.
Para novembro e dezembro, a cota de carne bovina é de 111 toneladas em equivalente carcaça, com tarifa zero. Não é só do Brasil: é compartilhada pelos países do Mercosul e distribuída por ordem de pedido.
O caminho é todo de papel. O exportador registra a licença no módulo LPCO do Portal Único Siscomex, tem 60 dias para vinculá-la à Declaração Única de Exportação e, após o desembaraço, recebe um “Certificado de Autorização de Cotas Mercosul”, segundo o BeefPoint. A própria Noruega ainda usa leilões para distribuir os direitos de importação.
Mas a Noruega integra o Espaço Econômico Europeu e segue a regra sanitária da União Europeia. Em 29 de outubro, o embaixador norueguês no Brasil, Kjetil Elsebutangen, disse que o bloqueio “não é uma medida comercial da Noruega contra o Brasil”, segundo o SBT News. “Precisamos esperar esse processo e a conclusão”, afirmou.
No frango e no mel, a prova avançou. A auditoria da DG Santé, feita entre 24 de agosto e 4 de setembro, concluiu que não há impedimento técnico para a reinclusão dos estabelecimentos de aves, segundo a Agrimídia em 29 de setembro, com informações do Mapa. O Mapa pediu que o relatório entrasse na pauta do comitê Scopaff de 20 e 21 de outubro.
Na carne bovina, o governo ainda aguardava uma auditoria europeia em campo, segundo O Tempo em 11 de setembro de 2026.
A engenharia escondida: a tarifa caiu e a carne continua do lado de cá. O que separa o boi brasileiro do prato norueguês não é imposto nem volume. É a diferença entre um registro que a cadeia faz sobre si mesma e uma verificação que o comprador aceita. A auditoria do frango mostra o caminho: a prova passou a valer quando um terceiro foi olhar.
Ucrânia: o grão existe, o que falta é a garantia de que o navio volta
Na edição 14, a Ucrânia apareceu batendo à porta da União Europeia com o seu trigo. Nesta semana, o problema não é a porta. É o mar.
Segundo o Christian Science Monitor de 1º de novembro de 2026, a movimentação de carga nos portos de Odesa, Chornomorsk e Pivdenny caiu mais de quinze vezes depois de 22 de julho, de acordo com o ministro da Infraestrutura ucraniano.
As exportações de grãos e leguminosas somavam 6,22 milhões de toneladas na safra comercial até 26 de outubro, segundo o Ministério da Política Agrária, citando o Serviço Aduaneiro, em dado reproduzido pela Finway. O trigo foi de 6,18 milhões de toneladas um ano antes para 3,5 milhões.
O grão não sumiu. Está guardado. Em 25 de agosto, o ministro Taras Vysotskyi disse ao Hromadske que a armazenagem poderia se esgotar já em novembro se os ataques continuassem bloqueando a exportação.
O que mudou desde 2022 é a garantia. O acordo de grãos daquele ano, mediado pela ONU e pela Turquia, dava passagem segura aos navios. A Rússia saiu um ano depois, e o corredor que a Ucrânia montou no lugar não tem garantia internacional, segundo o Monitor.
Sem garantia, não há seguro. Segundo a CNBC, em 10 de outubro de 2026, os ataques no Mar Negro tornaram impossível segurar navios comerciais. Em 1º de outubro, a Bloomberg informou que Turquia e ONU tentavam abrir novas conversas por uma trégua no Mar Negro.
O custo aparece na fazenda. O agricultor Viktor Kozhukharenko, que cultiva 15 mil hectares, pagava US$ 33 para transportar uma tonelada e agora paga US$ 70 pelo Danúbio, segundo o Monitor. “Sem o mar, não temos nada”, disse.
O Estado tentou converter o grão parado em crédito. Em 31 de julho, Vysotskyi anunciou empréstimos garantidos pelo grão armazenado, segundo a UkrAgroConsult. O Banco Nacional elevou o coeficiente de garantia dos produtos agrícolas de 0,4 para 0,75, segundo a USM Media em 14 de agosto.
A engenharia escondida: o trigo ucraniano não perdeu qualidade nem comprador. Perdeu o fiador da viagem. Sem um terceiro que garanta a passagem, a seguradora não assina, e o grão vira estoque. O Estado responde reescrevendo quanto esse estoque vale como garantia no banco. É a mesma colheita, com um papel diferente em volta.
China: a soja existe nos dois lados, o que escolhe o vendedor é uma promessa de Estado
Na edição 15, olhei o acordo de soja do lado americano, onde a demanda virou promessa de Estado. Nesta semana, o lado de quem compra.
Segundo a DatamarNews de 23 de outubro de 2026, com dados da consultoria Biond Agro, a China contratou 13,73 milhões de toneladas de soja americana para 2026, contra um compromisso de pelo menos 25 milhões por ano entre 2026 e 2028. Faltam cerca de 11,3 milhões.
A tarifa total chinesa é de 13% sobre a soja americana e de 3% sobre a brasileira, segundo a Biond Agro. “A China entra nos próximos meses com parte significativa das suas necessidades já coberta”, disse a analista Isabella Pliego.
Quem cumpre a promessa não é o mercado. Segundo o economista Fred Gale, ex-USDA, em análise para a Czarnikow em 26 de junho de 2026, todas as 8,38 milhões de toneladas de soja americana importadas entre janeiro e maio vieram de empresas registradas em Pequim, o que só COFCO e Sinograin poderiam fazer.
“As autoridades chinesas não têm mecanismo para obrigar multinacionais e empresas privadas a comprar soja americana”, escreveu Gale. As estatais respondem por 35% a 40% das importações, segundo ele.
O resto do mercado compra onde o preço manda. Para março de 2027, já há 6,73 milhões de toneladas de soja brasileira contratadas, segundo a Biond Agro.
A engenharia escondida: a soja americana e a brasileira são intercambiáveis no esmagador. O que decide a origem é quem assina o compromisso e quem é obrigado a cumpri-lo. A promessa entre governos só alcança as empresas que o governo controla. O Brasil vence onde a confiança é de mercado, e os Estados Unidos, onde ela é de Estado.
A síntese: a commodity está lá, o que falta é uma garantia que o outro lado aceite
Tire os três da manchete desta semana.
No Brasil, a carne existe e a tarifa caiu, mas a prova sobre antimicrobianos não convence quem compra. Na Ucrânia, o grão existe e o comprador também, mas ninguém garante a viagem. Na China, a soja existe nos dois hemisférios, mas a promessa de compra só vale onde o Estado manda.
Em nenhum dos três o problema é a coisa física.
O que decide é a garantia: a verificação que um terceiro aceita, o fiador que torna o navio segurável, o compromisso que alguém é de fato obrigado a cumprir. Quando ela falta, a mercadoria fica parada, barrada ou desviada.
É a lição que o Brasil conhece por dentro: o maior rebanho do mundo quase não vira capital, não por falta de boi, mas por falta de prova que um terceiro aceite. (Escrevi sobre isso em O Boi Que Não Vira Capital.)
A próxima fronteira do agro não é produzir mais. É construir garantias que o outro lado aceite sem precisar acreditar na palavra de quem vende.
Notas e fontes (semana de 2 de novembro de 2026)
- Brasil, retirada da lista da UE anunciada em 12 de maio de 2026, efeito em 3 de setembro, produtos afetados, falta de garantias sobre antimicrobianos, Argentina, Paraguai e Uruguai habilitados: Agência Brasil, 12 de maio de 2026. Avaliação europeia sobre registros e declarações da cadeia e proibição de promotores de crescimento em abril: Folha Agrícola via Fundesa, 11 de agosto de 2026.
- Brasil, Portaria Secex nº 548, cota de 111 toneladas de carne bovina para novembro e dezembro, ordem de pedido, LPCO, 60 dias para a DU-E, Certificado de Autorização de Cotas Mercosul, leilões noruegueses: BeefPoint, com Feed&Food, 22 de outubro de 2026. Declarações do embaixador Kjetil Elsebutangen e vigência em 1º de novembro: SBT News, Caio Barcellos, 29 de outubro de 2026.
- Brasil, auditoria da DG Santé em aves e mel e pauta do Scopaff de 20 e 21 de outubro: Agrimídia, 29 de setembro de 2026. Espera de auditoria europeia na carne bovina: O Tempo, 11 de setembro de 2026.
- Ucrânia, queda de mais de quinze vezes na carga dos portos, capacidade de armazenagem de 59 milhões de toneladas (FAO), acordo de 2022 e corredor sem garantia internacional, custos de US$ 33 e US$ 70 e declaração de Viktor Kozhukharenko: Christian Science Monitor, Dominique Soguel, 1º de novembro de 2026. Exportações de 6,22 milhões de toneladas e trigo: Finway, com dados do Ministério da Política Agrária, 26 de outubro de 2026.
- Ucrânia, alerta de armazenagem em novembro: Hromadske, 25 de agosto de 2026. Seguro impossível no Mar Negro: CNBC, 10 de outubro de 2026. Conversas de Turquia e ONU: Bloomberg, 1º de outubro de 2026. Empréstimos garantidos pelo grão: UkrAgroConsult, 31 de julho de 2026. Coeficiente de garantia de 0,4 para 0,75: USM Media, 14 de agosto de 2026.
- China, 13,73 milhões de toneladas contratadas, compromisso de 25 milhões, tarifas de 13% e 3%, 6,73 milhões de toneladas brasileiras para março e declaração de Isabella Pliego (Biond Agro): DatamarNews, Gabriel Malheiros, 23 de outubro de 2026. Importações por empresas de Pequim, 8,38 milhões de toneladas, participação das estatais e declaração de Fred Gale: Czarnikow, 26 de junho de 2026.
- Foto: Jim Witkowski / Unsplash