Agro Internacional

Agro Internacional — Edição 16

Na Argentina, a prova de origem ganhou preço próprio no mercado futuro, e a briga agora é sobre quem é dono da plataforma que a gera. Nos Estados Unidos, o governo vai pagar US$ 8 bilhões pelo diesel da colheita com base num prejuízo calculado em modelo, não em recibo. Na Europa, os ministros tentam fechar a nova PAC decidindo antes de tudo quem conta como agricultor.

🌐 In English: International Agro — Issue 16

A Argentina pôs preço na prova, os Estados Unidos vão pagar por um prejuízo que ninguém precisa provar, e a Europa abre a nova PAC decidindo quem é agricultor. Toda semana eu leio o agro do mundo procurando não a notícia, mas a camada que ela esconde.

Na Argentina, em 23 de outubro de 2026, o La Nación contou que a bolsa de futuros A3 Mercados passou a aceitar uma soja diferente: a soja que prova que não veio de desmatamento.

Nos Estados Unidos, em 19 de outubro, o USDA anunciou US$ 8 bilhões em pagamentos únicos para aliviar o custo do diesel na colheita.

Na Europa, nesta segunda-feira, 26 de outubro, os ministros de Agricultura se reúnem em Luxemburgo para tentar fechar a parte não financeira da PAC depois de 2027.

Parece três histórias. É uma só.

US$ 8 bi
Pagamentos únicos do Harvest Fuel Relief, safra 2026 (USDA, 19 de outubro de 2026)
560 mil
Produtores que receberam o programa anterior, o Farmer Bridge Assistance, de US$ 12 bilhões (USDA)

Argentina: a soja e o boi existem, a prova virou mercadoria com dono disputado

A partir desta semana, a A3 Mercados habilita a condição de entrega “SOJA VISEC” no contrato futuro de soja em dólares com destino Rosário, segundo o La Nación de 23 de outubro de 2026.

Para entregar, a soja precisa cumprir o padrão de qualidade da soja comum e comprovar o cumprimento do Regulamento europeu 2023/1115 (EUDR), pelo sistema Visec ou outro que a A3 determine.

O mecanismo é um “pase”: compra-se uma soja e vende-se a outra no mesmo vencimento. O preço do pase, em dólares por tonelada, é a diferença entre as duas. Ou seja, é o preço da prova, sozinho.

Os prêmios pela soja rastreável vão de 2 a 8 dólares por tonelada, segundo o La Nación. A plataforma Visec Soja tinha cerca de 12 mil produtores inscritos, com mais de 5 milhões de hectares, e soma mais de 300 adesões por dia, segundo Gustavo Idígoras, presidente da Ciara-CEC.

O detalhe: a Visec Soja foi desenvolvida pelo setor privado, com os exportadores à frente. Ela “monitora, reporta e verifica”, segundo o La Nación. Não certifica.

No boi, a mesma lógica já gera atrito. Em 22 de outubro, as Confederaciones Rurales Argentinas (CRA) denunciaram que frigoríficos exportadores pagam menos pelo gado de campos que não estão inscritos na Visec Carne, segundo o La Nación.

“Não existe norma europeia nem argentina que obrigue o produtor a se inscrever em plataforma alguma”, disse a CRA. Daniel Urcía, da Fifra, respondeu que não conhece casos concretos, e que o exportador apenas pode deixar de comprar de quem não entrega a documentação.

Em 26 de outubro, Pablo Ginestet, presidente da Carbap, escreveu no La Nación: “O objetivo não pode ser que todos os produtores dependam de uma única plataforma.” Ele pediu concorrência entre plataformas, interoperabilidade e uso dos registros públicos.

O outro lado da conta foi apresentado pelo consultor Víctor Tonelli, também no La Nación, em 25 de outubro. A carne desossada vendida à Europa valeu em média US$ 14.615 por tonelada, contra US$ 7.535 em outros destinos.

O que a prova vale na carne

Preço médio da carne desossada exportada (US$ por tonelada)

Europa
US$ 14.615
Outros destinos
US$ 7.535
Víctor Tonelli, La Nación, 25 de outubro de 2026

A Europa ficou com 11% do volume e 19,4% do valor dos cortes desossados exportados nos nove primeiros meses do ano, segundo Tonelli.

A engenharia escondida: a soja e o boi são os mesmos. O que nasceu esta semana é um preço separado para a prova, negociável em bolsa. E quando a prova vira ativo, a pergunta deixa de ser se ela é necessária e passa a ser quem guarda os dados que a produzem. Os produtores não brigam com a regra europeia. Brigam com o fato de que o registro que dá acesso ao mercado pertence a quem compra deles.

Estados Unidos: o diesel existe, o prejuízo é um modelo

Em 19 de outubro de 2026, o USDA anunciou o Harvest Fuel Relief: US$ 8 bilhões “para pagamentos únicos a agricultores americanos nesta colheita”, segundo o comunicado reproduzido pela RFD-TV.

O dinheiro vem da Commodity Credit Corporation e será administrado pela Farm Service Agency (FSA), segundo o Agri-Pulse. Não exige vínculo com seguro rural.

O ponto central está na fórmula. O USDA vai usar “uma fórmula uniforme para cobrir uma parte das perdas modeladas na safra 2026”, segundo o comunicado. A média nacional de perda será calculada com a área plantada declarada à FSA, as estimativas de custo de produção do Economic Research Service e as produtividades e preços do relatório WASDE.

Ninguém precisa mostrar a nota do diesel. As taxas de pagamento por produto saem em novembro, e o método para as demais culturas será “anunciado mais tarde”, segundo o USDA. Produtores de especialidades foram convidados a mandar dados de custo de combustível por e-mail para HarvestFuel@usda.gov.

O modelo replica o Farmer Bridge Assistance, que pagou US$ 12 bilhões a mais de 560 mil produtores, segundo o USDA.

A American Farm Bureau Federation projeta cerca de US$ 8 a mais de diesel por acre de milho, e US$ 2.227 a mais por fazenda média, segundo o Moneywise, republicado pelo Yahoo Finance em 23 de outubro de 2026. O diesel no varejo bateu recorde de US$ 6,50 por galão em setembro, segundo a Bloomberg citada pela Farm Policy News, com as exportações restritas no Estreito de Ormuz pela guerra com o Irã.

“Uma resposta de curativo agora, duas semanas antes da eleição, não resolve o problema”, disse Aaron Lehman, presidente do Iowa Farmers Union, em 20 de outubro.

A engenharia escondida: o Estado não paga o custo que o agricultor teve. Paga o custo que um modelo diz que ele deveria ter tido, a partir de três bases de dados oficiais. Isso torna o pagamento rápido e barato de auditar. Também desloca a confiança: o que vale não é o recibo da fazenda, é o cadastro de área na FSA e a planilha do ERS. Quem está bem registrado recebe. Quem gastou mais que a média, não.

Europa: o campo existe, a disputa é quem conta como agricultor

O Conselho de Agricultura e Pescas se reúne em Luxemburgo em 26 e 27 de outubro de 2026. O item 5 da agenda é o regulamento da PAC depois de 2027, para “orientação geral parcial”, segundo a agenda provisória do Conselho de 23 de outubro.

Parcial porque o que envolve dinheiro fica de fora. O teto e a degressividade dos pagamentos seguem entre colchetes, presos à negociação do orçamento 2028-2034, segundo a Agence Europe de 22 de outubro.

O que entra é a definição de quem recebe. O texto de compromisso da presidência irlandesa, publicado em 21 de outubro, restringe o apoio a agricultores com um nível mínimo de atividade agrícola, que pode incluir quem trabalha em tempo parcial, segundo a Agence Europe.

Cada Estado-membro poderá usar critérios como testes de renda, trabalho aplicado na fazenda, objeto social da empresa ou inscrição em registros nacionais ou regionais, inclusive em forma de lista negativa.

O mesmo texto cria um artigo com verificações mínimas para confirmar que a área declarada está de fato à disposição do agricultor. E eleva o teto anual do apoio acoplado de €4 milhões para €6 milhões, segundo a Agence Europe.

Em 28 de setembro, os ministros já tinham pedido definições mais claras e regras mais simples. “Os agricultores precisam de uma política que dê estabilidade e renda justa”, disse o ministro irlandês Martin Heydon, que preside o Conselho.

Na mesma agenda de 26 de outubro, a Itália pede a extensão do apoio temporário excepcional do FEADER para cobrir o aumento do custo de combustível agrícola. O diesel caro é o mesmo dos dois lados do Atlântico.

A engenharia escondida: antes de discutir quanto cada um recebe, a Europa precisa decidir quem existe para o sistema. Um teste de renda, um registro, uma checagem de que a terra declarada é de quem declara. O dinheiro ainda nem foi dividido, e a régua de identidade já está sendo escrita. É ela que decide se o euro chega a quem planta ou a quem apenas detém o título.

A síntese: a commodity está lá, o que se disputa é o registro que a reconhece

Tire os três da manchete desta semana.

Na Argentina, a soja e o boi existem, mas só valem o preço europeu com uma prova gerada numa plataforma que pertence a quem compra. Nos Estados Unidos, o custo do diesel existe, mas o Estado paga por um prejuízo modelado sobre o cadastro de área. Na Europa, o agricultor existe, mas o direito ao apoio depende de um teste que ainda está sendo redigido.

Em nenhum dos três o problema é a coisa física.

O que decide é o registro: a base de dados que atesta a origem, a área declarada que alimenta o modelo, a lista que diz quem é agricultor. E nos três casos quem controla o registro tem poder sobre o preço, o pagamento ou o direito.

É a lição que o Brasil conhece por dentro: o maior rebanho do mundo quase não vira capital, não por falta de boi, mas por falta de prova que um terceiro aceite. (Escrevi sobre isso em O Boi Que Não Vira Capital.)

A próxima fronteira do agro não é produzir mais. É decidir quem guarda o registro que transforma produção em valor, e se esse registro pode ser verificado por mais de um lado.


Notas e fontes (semana de 26 de outubro de 2026)

  • Argentina, condição de entrega “SOJA VISEC” na A3 Mercados, mecanismo do pase, prêmios de 2 a 8 dólares por tonelada, cerca de 12 mil produtores e mais de 5 milhões de hectares, mais de 300 adesões por dia, declarações de Gustavo Idígoras: La Nación, Fernando Bertello, 23 de outubro de 2026.
  • Argentina, denúncia da CRA sobre descontos no gado fora da Visec Carne e resposta de Daniel Urcía (Fifra): La Nación, 22 de outubro de 2026. Artigo de Pablo Ginestet (Carbap): La Nación, 26 de outubro de 2026. Preços de US$ 14.615 e US$ 7.535 por tonelada, 11% do volume e 19,4% do valor: Víctor Tonelli, La Nación, 25 de outubro de 2026.
  • EUA, Harvest Fuel Relief, US$ 8 bilhões, fórmula sobre perdas modeladas, área plantada da FSA, ERS e WASDE, taxas em novembro, Farmer Bridge Assistance de US$ 12 bilhões a mais de 560 mil produtores: comunicado do USDA reproduzido pela RFD-TV, 19 de outubro de 2026, e Agri-Pulse, 19 de outubro de 2026. Diesel recorde de US$ 6,50 por galão: Farm Policy News, 20 de outubro de 2026. Projeções da AFBF (US$ 8 por acre, US$ 2.227 por fazenda) e declaração de Aaron Lehman: Moneywise via Yahoo Finance, 23 de outubro de 2026.
  • UE, agenda provisória do Conselho de Agricultura e Pescas de 26 e 27 de outubro de 2026 (doc. 14448/26), incluindo o pedido italiano sobre o FEADER e combustível: Conselho da UE, 23 de outubro de 2026. Texto de compromisso de 21 de outubro, agricultor ativo, verificação de área, apoio acoplado de €4 milhões para €6 milhões, teto e degressividade entre colchetes: Agence Europe, 22 de outubro de 2026. Reunião de 28 de setembro e declaração de Martin Heydon: Presidência irlandesa.
  • Foto: Jakub Brabec / Unsplash