Agro Internacional — Edição 11
Na Argentina, as exportações de aceite de soja atingiram 3,03 milhões de toneladas no início da campanha 2025/26, o maior volume histórico, mas o canal que sustenta o recorde pertence a quem compra, não a quem vende. Nos Estados Unidos, um voto de 12 a 11 mandou a Farm Bill ao plenário do Senado, que precisa de 60 com a extensão expirando em 9 dias. Na Europa, 100 dias para o prazo do EUDR com o sistema de rastreabilidade ainda sendo montado. Argentina, Estados Unidos e Europa na semana de 21 de setembro de 2026, lidos não pela notícia, mas pela camada que ela esconde.
Português Gabriel Rondon
🌐 In English: International Agro — Issue 11
Na Argentina, as exportações de aceite de soja chegaram a 3,03 milhões de toneladas no início da campanha 2025/26, o maior volume histórico, a preços acima de US$ 1.100 por tonelada, mas o canal que faz o recorde funcionar pertence a quem compra, não a quem vende. Nos Estados Unidos, o Comitê de Agricultura do Senado aprovou a Farm Bill por 12 a 11 com o retorno de Mitch McConnell, e agora a lei precisa de 60 votos no plenário com a extensão expirando em 30 de setembro de 2026. Na Europa, começa a contagem regressiva de 100 dias para o prazo do EUDR, com o sistema de rastreabilidade relançado há menos de 90 dias. Toda semana eu leio o agro do mundo procurando não a notícia, mas a camada que ela esconde.
Na Argentina, as exportações de aceite de soja atingiram 3,03 milhões de toneladas no início da campanha 2025/26, o maior volume já registrado para esse período da série histórica segundo o INDEC, impulsionadas por uma demanda indiana em recorde e pelos concorrentes americanos e ucranianos alocando mais óleo para biocombustível doméstico. Nos Estados Unidos, o Comitê de Agricultura do Senado aprovou a Agricultural Act of 2026 em 16 de setembro de 2026 por 12 votos a 11 em votação estritamente partidária, com o retorno de Mitch McConnell após três meses de ausência como voto decisivo, mas o plenário do Senado exige 60 votos e a extensão atual da Farm Bill expira em 30 de setembro de 2026, segundo o DTN e o Farm Policy News. Na Europa, faltam exatamente 100 dias para o prazo de 30 de dezembro de 2026 do EUDR, com o sistema de informação da Comissão relançado em junho de 2026 com declarações simplificadas e especificações de API, e as sessões de treinamento para operadores concluídas em 17 de setembro de 2026, segundo o eudr.today.
Parece três histórias. É uma só.
Em cada uma, a commodity existe. A Argentina tem o aceite, o preço e a demanda. Os Estados Unidos têm a terra e o produtor. A Europa tem o mercado e as regras. O que falta em cada caso é a camada de coordenação que transforma o que existe em algo que flui de forma previsível e rastreável.
Argentina: o aceite é recorde, mas o canal pertence à Índia
As exportações de aceite de soja da Argentina atingiram 3,03 milhões de toneladas no início da campanha 2025/26, o maior volume já registrado para esse período da série histórica, segundo dados do INDEC acompanhados pelo DataPortuaria.
O volume existe e é real.
O que sustenta o recorde é uma combinação de fatores que não dependem de infraestrutura argentina. A Índia, maior importadora mundial de óleos, está comprando em volume recorde. E os principais concorrentes históricos, Estados Unidos e Ucrânia, estão redirecionando parte crescente de sua produção para o mercado doméstico de biocombustíveis, encolhendo a oferta internacional disponível.
Os preços refletem o momento. O aceite de soja para exportação ficou acima de US$ 1.100 por tonelada ao longo de todo 2026, com períodos acima de US$ 1.200, impulsionado também pela tensão no Estreito de Ormuz, segundo dados da LSEG.
A engenharia escondida: o recorde argentino não é um ativo de coordenação próprio. É uma janela que se abre quando os outros fecham. A Índia compra porque precisa e porque os outros fornecedores estão ocupados com biocombustível doméstico. Quando os Estados Unidos ou a Ucrânia voltarem ao mercado de exportação, ou quando a Índia concluir sua própria transição para biodiesel doméstico, o canal some. O aceite de soja argentino não tem contrato de longo prazo com o destino. Tem preço de spot que reflete o que falta no mundo naquele momento.
Estados Unidos: o comitê aprovou, mas o plenário precisa do dobro dos votos
O Comitê de Agricultura do Senado aprovou a Agricultural Act of 2026 em 16 de setembro de 2026, por 12 votos a 11, em votação estritamente partidária. O retorno de Mitch McConnell, ausente por três meses, foi o voto que virou o placar.
O projeto vai ao plenário do Senado.
O plenário não é o comitê. Para superar os procedimentos de tramitação no Senado, o projeto precisa de 60 votos, o que exige ao menos alguns democratas cruzando a linha. A extensão atual da Farm Bill expira em 30 de setembro de 2026. O Senado tem apenas 10 dias úteis de sessão antes de entrar no recesso pré-eleições de meio de mandato. A maioria das análises aponta para uma nova extensão de curto prazo, com o voto de plenário ficando para novembro, depois das eleições.
O nó continua sendo o SNAP. O projeto aprovado na Câmara em abril cortou aproximadamente US$ 186 bilhões do programa ao longo de dez anos, segundo o Bloomberg Government. Os democratas do comitê exigem um período de carência de dois anos antes de os estados co-financiarem o programa. Os republicanos oferecem um ano. O placar no comitê mudou de 10 a 11 em agosto para 12 a 11 em setembro, mas o plenário precisaria de muito mais movimento.
A engenharia escondida: a Farm Bill não é um orçamento. É a arquitetura que diz ao produtor americano quais serão os preços de referência, as fórmulas de seguro de safra e as taxas de conservação pelos próximos cinco anos. Enquanto ela opera em modo de extensão curta, o produtor não consegue planejar além do trimestre seguinte. O retorno de McConnell sinalizou movimento, mas 12 a 11 em comitê e 60 votos no plenário são distâncias políticas muito diferentes.
Europa: 100 dias e o sistema de rastreabilidade ainda se montando
Faltam 100 dias para o prazo de 30 de dezembro de 2026 do EUDR, o regulamento que proíbe a importação ou comercialização na UE de sete commodities, incluindo soja e gado, sem prova de que são livres de desmatamento e rastreáveis até a parcela exata de terra onde foram produzidas.
A semana passada marcou o fim dos treinamentos intensivos. A Comissão Europeia realizou sessões dedicadas para operadores nos dias 3, 8, 10 e 15 de setembro de 2026, e uma sessão específica para micro e pequenas operadoras primárias em 17 de setembro de 2026, segundo o eudr.today.
O sistema de informação do EUDR foi relançado em junho de 2026 com declarações simplificadas e especificações de API, para que operadores e traders possam submeter declarações de due diligence diretamente. A lógica é que toda a documentação de rastreabilidade convirja para um único sistema verificável.
O problema operacional mais difícil permanece o mesmo. O regulamento exige que o primeiro operador da UE que coloca o produto no mercado rastreie a commodity até a fazenda de origem, com geolocalização exata da parcela. Para cadeias com múltiplos intermediários em países como Brasil ou Argentina, isso exige acordos diretos com cada fornecedor de primeiro nível, que por sua vez precisam mapear os seus, em cascata.
A engenharia escondida: o prazo do EUDR não é uma data de conformidade da commodity. É uma data em que o sistema de informação que certifica essa conformidade precisa estar funcionando em escala para toda a cadeia. Ter o aceite ou a soja livres de desmatamento não é suficiente se você não consegue provar isso num sistema aceito pela União Europeia. Quem constrói a infraestrutura de prova controla o acesso ao mercado. 100 dias para montar isso para toda a cadeia de soja é pouco tempo.
A síntese: a fronteira do agro sempre foi a coordenação, não a safra
Tire os três da manchete desta semana.
Na Argentina, o aceite de soja existe em volume recorde e a preços históricos, mas o canal que o leva ao comprador final é construído pela demanda indiana e pelo espaço que os concorrentes deixam, não pela Argentina. Nos Estados Unidos, um voto de um senador septuagenário de volta após três meses transformou 10 a 11 em 12 a 11 e mandou a lei de coordenação agrícola para o plenário, onde ela precisa do dobro dos votos e onde a janela tem 9 dias. Na Europa, 100 dias para a prova de rastreabilidade entrar em vigor, com o sistema de informação que vai verificar essa prova relançado há menos de 90 dias.
Em nenhum dos três o problema é a coisa física.
O que é escasso, contestado e decisivo é sempre o mesmo: a infraestrutura de confiança e coordenação em volta do que existe.
É a mesma lição que o Brasil aprendeu do seu jeito, quando descobriu que o maior rebanho do mundo quase não vira capital, não por falta de boi, mas por falta de prova. (Escrevi sobre isso em O Boi Que Não Vira Capital.)
A próxima fronteira do agro não é produzir mais. É construir a camada que faz o que já existe finalmente fluir.
Notas e fontes (semana de 21 de setembro de 2026)
- Argentina, exportações de aceite de soja (3,03 Mt no início da campanha 2025/26, maior volume histórico): DataPortuaria e Mirador Provincial, 19 de setembro de 2026. Preços acima de US$ 1.100/t e US$ 1.200/t em picos de 2026, dados LSEG: Noticias AgroPecuarias, 20 de setembro de 2026. Demanda indiana recorde e concorrentes redirecionando para biocombustível: Bichos de Campo.
- EUA, voto de 12 a 11 no comitê em 16 de setembro de 2026 e retorno de McConnell: DTN, 17 de setembro de 2026 e múltiplos veículos. Extensão expirando em 30 de setembro de 2026: Farmers.gov. Corte de US$ 186 bilhões do SNAP via H.R.1 ao longo de dez anos: Bloomberg Government. Exigência de 60 votos no plenário: padrão de clotura do Senado americano.
- UE, prazo do EUDR 30 de dezembro de 2026 e sessões de treinamento de setembro de 2026: eudr.today. Relançamento do sistema de informação em junho de 2026 com declarações simplificadas e especificações de API: eudr.today/en/eu-information-system.